Crítica de Artes, Curadorias

Do ofício do Curador


O conceito de Curadoria em Artes Visuais é relativamente novo, vindo de cerca dos anos 1980. Segundo Tadeu Chiarelli “a princípio, existiriam dois tipos [para “curador”]: o ligado diretamente a uma determinada instituição museológica- normalmente alguém formado nas áreas de História ou teoria da arte, e o curador independente – um profissional ligado às áreas de História ou Crítica de arte que concebe exposições autônomas, sem estar necessariamente vinculado a uma instituição”  (MUSEU DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO, 2008). No Brasil, segundo o mesmo livro, a atividade do “curador” inicia com Walter Zanini a convite da Fundação Bienal de São Paulo para assumir a curadoria da Bienal de 1981. Retrata o mesmo autor que a atividade de Curador no início foi um pouco conturbada por causa do estrelismo de alguns curadores que fizeram tanto alarde com seus “conceitos genéricos e bombásticos, as peculiaridades cenográficas de suas montagens etc – tornou-se, em muitos casos, mais comentada do que propriamente as obras exibidas” (Ibidem, p. 13).

O ofício de curador abrange várias áreas do conhecimento dentro das Artes Visuais, mas não apenas a História da Arte da qual o curador precisa estar sempre ligado bem como conhecer de montagem, manutenção, execução, plástica, iluminação, logística e muitas vezes sonorização. O Curador de Artes Visuais distingue-se do produtor por causa da interferência que afere no trabalho do artista, que deve ser visto como uma ação benéfica para ambos enquanto tem o curador como canalizador das tendências visuais, poéticas e em alguns casos mercadológica; distingue-se do produtor mas retém algumas tarefas de produção como contratação de mão-de-obra especializada, acompanhamento de logística, acompanhamento de montagem, dentre outras possibilidades de cada projeto.

O artista contemporâneo projeta na arte um caráter muito mais autobiográfico por estar numa relação de experimentação com o objeto que, após o início do conceito dadaísta permitiu o uso de materiais não convencionais para a criação, do que no período da Arte Moderna. Segundo a pesquisadora Kátia Canton a arte contemporânea,
diferentemente da tradição do novo, que engendrou experiências que tomaram corpo a partir do século XX com as vanguardas, a arte contemporânea que surge na continuidade da era moderna se materializa a partir de uma negociação constante entre arte e vida, vida e arte. Nesse campo de forças, artistas contemporâneos buscam sentido, mas o que finca seus valores e potencializa a arte contemporânea são as inter-relações entre as diferentes áreas do conhecimento humano. (CANTON, 2009, p. 49)
Principalmente com a Arte Conceitual há uma dificuldade para o público  em se relacionar com a criação do artista (primeiro pois há o empenho de energia para se fazer a leitura da obra) para que exista um relacionamento poético entre o objeto e o visitante, visto que muitas das linguagens existentes hoje são interpenetrações com a Arte Conceitual. Além de produzir o conceito da exposição, talvez uma das mais importantes ações do Curador (independente) de artes é tornar-se um interlocutor entre artista-obra-público. Nem sempre a conexão que o artista tem com o mundo é entendida em todas as partes do processo de sua criação, portanto o papel do Curador é primeiro acompanhar este processo de criação, da trajetória de sua pesquisa visual, da criação e todo o limiar que tange o objeto criado, por isso há a exigência fundamental de tempo e visita do Curador para acompanhar o artista da qual está trabalhando junto em uma exposição, por exemplo. O segundo item fundamental da relação do Curador é fazer umatentativa das leituras possíveis da obra do artista; leitura possível pois na Arte Contemporânea o objeto seja ele uma pintura, gravura, videoarte, instalação, performance, etc, possui diversas interpretações e não cabe ao Curador organizá-las, sequenciá-las, prendê-las, sistematizá-las de maneira que o público tenha apenas uma interpretação, mas servir de base poética transformada seja ela num texto, na montagem da exposição, na união das obras expostas, a colaborar com uma entre múltiplas possibilidades de leitura. A Curadora Rejane Cintrão comenta sobre a intermediação
Eu vejo o curador como a pessoa que vai intermediar a leitura da obra, possibilitando que ela seja compreendida dentro de um determinado contexto. O curador vem com uma ideia, tem um conceito que permite reunir certas obras. Na minha opinião, esse conceito deve estar claro para o público […]. O público leigo, que é a grande maioria, precisa de uma intermediação, que não precisa necessariamente acontecer por meio do educador. (MUSEU DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO, 2008, p. 121)
A obra e o artista sempre continuarão sendo o papel principal de uma mostra, o Curador tem sua importância mostrada na relação que consegue desenvolver entre artista-obra-público para que a própria obra seja relevada, observada, entendida, (as vezes) consumida, parafraseada, lembrada, referida – que tenha importância no tempo e espaço que ocupa, ou no tempo e espaço que está sendo mostrada. O papel do curador não deve ser entendido como um produtor de artes, mas como um profissional que desempenha papel de importância ao estudar a linguagem, a obra, o artista, o tempo, o espaço físico do local e o espaço onde o local ocupa, mas principalmente a história e trajetória que a obra/artista carregam.

Referências bibliográficas
CANTON, K. (2009). Do Moderno ao Contemporâneo (Coleção temas da arte contemporânea ed.). São Paulo: Editora Martins Fontes.
MUSEU DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO. (2008). Grupo de estudos de Curadoria do Museu de Arte Moderna (2?ed ed.). (F. CHAIMOVICH, Org.) São Paulo.

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