Curadorias

Cara Juliana, o problema é bem mais em baixo (ou em cima)…


Vi a reportagem da Select deste mês e achei necessário escrever sobre o assunto. Na reportagem “Encruzilhada Digital” a jornalista Juliana Monachesi nos traz os problemas sobre a popularização da Arte Digital em vários sentidos mas no principal, como está sendo adquirido e assim preservado pelas instituições brasileiras, públicas ou privadas. Com algumas pessoas falando sobre o tema, a jornalista relata as dificuldades e a quase inexistência de um programa ou mesmo uma preocupação em se manter esta parte importante da arte contemporânea que está se esvaindo. Com exceção de alguns locais que o artigo cita, a preservação deste patrimônio é quase ínfimo se comparado a outros países que já incorporam a Arte Digital em seus acervos e coleções.

Já explicados no artigo, a questão da conservação é muito complicada quando se trata de uma essência tecnológica que muda constantemente. Concordo pois há uma dificuldade ímpar, por exemplo, quando se trata de dispositivos celulares, telas que são rapidamente trocadas pelo mercado, e em menos de um ano já não se encontram mais peças de reposição. No Brasil, o Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/90) nos assegura que:

 

Artigo 32. Os fabricantes e importadores deverão assegurar a oferta de componentes e peças de reposição enquanto não cessar a fabricação ou importação do produto”

 

“Parágrafo Único – Cessadas a produção ou importação, a oferta deverá ser mantida por período razoável de tempo, na forma da lei”.

 

e só em 1997 foi feito um inciso

 

XXI – deixar de assegurar a oferta de componentes e peças de reposição, enquanto não cessar a fabricação ou importação do produto, e, caso cessadas, de manter a oferta de componentes e peças de reposição por período razoável de tempo, nunca inferior à vida útil do produto ou serviço”.

 

ou seja, estamos fadados a um fracasso de texto que pode definir quanto tempo um objeto pode deixar de receber peças de reposição. Se tratando de uma instalação multimidia ou de Arte Digital, pode ser mesmo complicadíssimo fazer esse tipo de reposição daqui a 10, 20 ou 50 anos. Nos Estados Unidos, por exemplo, para alguns produtos as empresas precisam ter peças de reposição por até 10 anos, por aqui, é quando o fabricante acha que o aparelho tem vida útil. Bem, mas não é por isso que me senti impelido a escrever sobre o assunto da conservação e memória, é sobre os espaços públicos que não conhecem a palavra “conservação” nem pra objetos de arte que são mais facilmente conservados como tão pouco para as instalações digitais.

Minha pesquisa de mestrado (e de doutorado seguirá com tema parecido) foi sobre os Salões de Arte Contemporânea de Santo André, e nela eu vi, descrevi e argumentei entre outros assuntos, a péssima conversação dos objetos de arte (objetos aqui incluo todas as formas de arte, pinturas, esculturas, assemblages, vídeos, tudo) que são jogados constantemente de um lado para o outro. Não estou falando essencialmente deste acervo de Santo André, mas de uma forma geral é como se encontram todos os acervos municipais e estaduais de nosso país, com raríssimas exeções. Para quem quiser ver, o trabalho está disponível aqui. Esta pesquisa apesar de ser historiográfica, ou seja, eu escrevi a história-memória dos Salões de forma a relevar sua importância, não foi possível explicitar tanto a conservação na qual encontrei o acervo largado durante anos e anos, mas adianto, é lamentável. Lamentável mais ainda porque sei que não é exclusivo deste acervo, e que até instituições privadas de observação pública sofrem com o despreparo, falta de profissionais e problemas de gestão.

E novamente me pergunto, será que temos um problema enorme de gestão na área cultural que se arrasta faz anos? Ou será que temos falta de conservadores de arte especializados, de forma que cada coleção possa ter um consultor, mesmo que de forma cíclica?

Não há sequer um programa efetivo do IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus) para conservação de acervos municipais, só existe um edital que serve para restaurar obras de arte… ou seja, quando a coisa ficou bem ruim é que se faz alguma coisa. O erro do brasileiro é nunca pensar preventivamente em várias áreas, mas não podemos pensar que se queremos mais da cultura e artes no Brasil, temos que incentivar a começar direito. Problemas de gestão se resolvem lentamente, com incentivo à educação, informação globalizada e claro, menos elitismo. O processo das artes no Brasil elitista impede muito o crescimento, aliás, mais crescimento ainda do que já ocorreu nesses últimos três anos. Poderíamos ser referência, só não somos por falta de gente capacitada pra trabalhar, de políticas públicas globalizantes e de conservação… sempre me pergunto para quê adquirir obras em editais públicos que, em muitos casos, não se tem nem onde guardar adequadamente.

É gestão, gestão e… gestão. Em um país onde mais formamos administradores de empresas, não há sequer a cultura de pensar antes. Devemos copiar sim, exemplos de fora que possam nos chocar (sim, é esta a palavra!) para que um país sem memória possa manter alguma, e que seja mostrada à todos e não restritos a um espaço no eixo São Paulo – Rio de Janeiro.

Como é importante mostrar os quadros de Lothar Charoux, Fiaminghi, Antonio Henrique Amaral que estão nos muitos Salões deste país…

Juliana, será que veremos uma nova geração de coleções públicas e privadas, que possam pensar preventivamente e artistas que possam colaborar com este fato tão importante? Além das Instituições privadas como Itaú Cultural e Oi Futuro citadas no artigo, será que veremos uma luz no fim do túnel?

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Tomara.

 

 

 

 

 

Bibliografia

http://jus.com.br/revista/texto/7021/da-obrigatoriedade-de-fabricacao-de-pecas-de-reposicao-nas-legislacoes-consumeristas-brasileira-e-portuguesa

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